11/11/2025

A Identidade do Demônio



A palavra "demônio" não é nem hebraica nem bíblica, mas grega. Este termo só é imposto entre os judeus por influência da mentalidade grega e porque a partir do século III a.C. a Bíblia hebraica foi gradualmente traduzida para o grego, a língua universal do momento, na cidade de Alexandria. Nesta versão grega do texto sagrado, chamada tradução da Septuaginta, "satanás" às vezes é traduzido como "demônio". 

Ora, mesmo que a palavra "diabo" não exista adequadamente, o que há, pelo menos, no Antigo Testamento hebraico que corresponda à noção de que essa palavra significa? A primeira resposta também é dada e já a destacamos acima: uma espécie de ideia difusa da existência objetiva, quase personalizada, de Alguém ou Algo que se opõe a Deus e ao homem, para pior.

Em segundo lugar, os "demônios" – com outros nomes – logo serão identificados com os gênios do mal hebreus, aqueles seres malignos do folclore hebraico.

Terceiro, "demônios" ou seres sobrenaturais são para os israelitas os espíritos dos mortos (Is 8, 19).

Quarto, os demônios são, desdenhosamente, as divindades dos gentios: o que os pagãos adoram são certos espíritos que se fazem passar por deuses fazendo com que os povos um tanto tolos os adorem e ofereçam sacrifícios.

Em quinto lugar, muitas das funções desempenhadas pelo que os gregos chamam de "demônios nocivos e devastadores" são desempenhados no Antigo Testamento pelos "anjos de Javé". Eles são, como Satanás, espíritos subordinados a Deusanjos em princípio bons ou neutros, que se vingam em Seu favor por algumas más ações e são portadores contra os homens de pragas e castigos.

Finalmente, no que diz respeito à origem desses "demônios", temos que verificar: assim como em todo o Antigo Testamento não há um único texto em que a origem dos anjos seja claramente falada, também não encontramos nenhuma passagem que diga claramente de onde vêm esses possíveis gênios malignos que os judeus de língua grega chamavam de "demônios".

Há, no entanto, um texto importante e obscuro do livro de Gênesis que desempenhará um papel crucial na explicação da origem dos espíritos malignos:  6,14. O texto diz que os "filhos de Deus", isto é, os anjos encarregados por Deus de vigiar a terra e que – segundo a concepção hebraica – estavam à espreita no primeiro céu (Livro de Enoque, eslavônico: publicado na série apócrifa do Antigo Testamento, volume IV), localizados imediatamente acima da terra, estavam fixados nas filhas dos homens,  apaixonaram-se por eles e de sua relação carnal nasceram os gigantes, de imensa estatura, "heróis de velhos homens de renome" (versículo 4).

Esse mito parece ser semelhante ao que explica na mitologia grega a origem de certos gigantes: seres semidivinos, de enorme força, que nasceram da união dos deuses com as mulheres.

O texto bíblico de Gênesis não diz nada diretamente sobre "demônios", mas veremos imediatamente como anos depois a literatura apócrifa do Antigo Testamento (séculos IV/III a.C.  s. EU A.D.) Ele vai amplificar esse motivo e usá-lo para explicar a origem desses espíritos malignos.

De repente, por volta de 150 ou 160 a.C. no livro de Tobias, que faz parte do grupo de escritos bíblicos "deuterocanônicos" (assim chamados porque judeus e protestantes não os admitem no cânon, mas os católicos o fazem), provavelmente originalmente escritos em grego, um demônio aparece com todas as suas propriedades. Este é o famoso Asmodeus.

Este termo é provavelmente retirado do panteão persa: Asmodeus seria um "aesma daeva", um dos sete espíritos malignos que acompanham Angra Mainyu ("O Espírito do Mal", Ahriman, seu comandante-em-chefe. Esse demônio, Asmoodeo, estava apaixonado por Sara, filha de Raguel, parente de Tobias. Para que ninguém – nenhum pretendente – a tocasse, o demônio ciumento matou na noite de núpcias os sucessivos maridos que foram introduzidos no tálamo nupcial.

Esse demônio é literalmente assustado, fumigado, pelo jovem Tobias, o herói da história. Graças à fumaça mágica produzida pela incineração do coração e do fígado de um peixe misterioso, pescado pelo próprio Tobias, com a ajuda do anjo que o acompanha, no rio Tigre, o demônio foge. O anjo Rafael parte em perseguição e o prende no Egito, onde o acorrenta deixando-o impotente. Tobias pode então se casar com Sarah.

Em outro livro tardio do Antigo Testamento, o da Sabedoria (2, 24), a serpente do paraíso já está claramente identificada com Satanás (em grego, o Diabo), uma identificação que será muito bem-sucedida no futuro.

E, finalmente, em um escrito apócrifo, a Vida (grega) de Adão e Eva – também chamada de "Apocalipse de Moisés" (17, 4), publicada nos Apócrifos do Antigo Testamento, volume II – faz a mesma associação.

Referindo-se à queda de Adão, o autor do Livro da Sabedoria diz: "Deus criou o homem incorruptível, fê-lo à imagem da sua própria natureza; mas da inveja do Diabo entrou no mundo a morte, e é experimentada pelos que lhe pertencem" (Sabedoria 2, 24).

Aqui Satanás aparece não apenas como um certo oponente de Deus, mas como um adversário e inimigo da humanidade. Além disso, o mal mais temido pelos homens, a morte, não vem mais da divindade. O autor atribui-o inteiramente ao pernicioso ser maligno desse ser maligno. Começa a desenhar com características mais precisas o que mais tarde seria a Encarnação do Mal, e inicia uma teologia (mais propriamente, uma "teodiceia" = tratado que "justifica Deus") que busca aliviar a divindade de sua responsabilidade na origem do mal.

Continuaremos a nos perguntar que mudanças ocorreram na religião judaica para que, de repente, os demônios apareçam com mais clareza.

Antônio Piñero




09/11/2025

Os 4 cavaleiros do apocalipse (explicados)

   

Fonte: https://www.bibliaon.com/os_cavaleiros_do_apocalipse/


 Os 4 cavaleiros do Apocalipse são figuras simbólicas descritas no livro de Apocalipse. Eles representam as forças destrutivas que trarão o fim dos tempos. O primeiro, montado em um cavalo branco, representa conquista ou engano. O segundo, no cavalo vermelho, simboliza guerra. O terceiro, no cavalo preto, representa fome. E o quarto, no cavalo amarelo, traz morte e doença. Esses símbolos alertam sobre crises humanas e espirituais na Terra.

A visão dos 4 Cavaleiros do Apocalipse foi descrita no livro de Apocalipse, pelo apóstolo João. Ele teve a visão profética enquanto estava na ilha de Patmos, onde foi exilado por sua fé em Jesus. Essa visão, registrada em Apocalipse, fala de eventos que acontecerão nos últimos tempos.

CavaleiroCavaloO que representaSímbolo
PrimeiroBrancoConquista ou enganoArco e coroa
SegundoVermelhoGuerra e violênciaEspada
TerceiroPretoFome e escassezBalança
QuartoAmareloMorte e doençaOutros meios

Em Apocalipse 6, os 4 Cavaleiros representam o início do juízo de Deus sobre um mundo corrupto e distante de Sua graça. Os cavalos simbolizam o poder e a rapidez com que esses eventos acontecerão. Cristo, como o Cordeiro, tem autoridade para abrir os selos, confirmando a veracidade da Palavra e garantindo que os juízos serão cumpridos. Essa passagem nos lembra que o maligno será derrotado, e Deus aplicará Sua justiça soberanamente, trazendo a vitória consumada na cruz.

Serão apresentados o significado de cada cavalo e suas cores, o que cada cavaleiro representa e os objetos que carregam. Esses elementos simbólicos trazem importantes lições espirituais e conexões com outras passagens da Bíblia, auxiliando na compreensão de sua mensagem.

1º. O cavaleiro no cavalo branco

O primeiro cavaleiro monta um cavalo branco e carrega um arco. Em Apocalipse 6:2 diz que este cavaleiro estava com uma coroa na cabeça e cavalgava como um vencedor.

Olhei, e diante de mim estava um cavalo branco. Seu cavaleiro empunhava um arco, e foi-lhe dada uma coroa; ele cavalgava como vencedor determinado a vencer.
- Apocalipse 6:2

o cavaleiro do apocalipse no cavalo branco

Há diferentes interpretações sobre seu significado. Alguns o veem como um símbolo de conquista ou domínio; outros acreditam que ele representa engano, por aparentar ser justo (o branco simboliza pureza), mas na realidade traz destruição. Essa interpretação conecta-se com advertências bíblicas sobre falsos messias.

E Jesus, respondendo, disse-lhes: Acautelai-vos, que ninguém vos engane, porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e enganarão a muitos.
- Mateus 24:4-5 ARC

Somos lembrados de que nem tudo o que parece justo e verdadeiro é de Deus. Para o cristão, é essencial discernir entre o que vem de Deus e o que é uma imitação enganosa. Essa lição reforça a importância de conhecermos a Palavra e buscar orientação do Espírito Santo para não ser levado por falsas doutrinas ou lideranças que desviam do Evangelho genuíno.

E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.
- João 8:32 ARC

Simbologia e significado do cavaleiro no cavalo branco:

  • Cavalo Branco: Simboliza pureza, mas também pode representar engano, associando-se a falsos messias.
  • Cavaleiro: Representa o poder de conquista ou a aparência de justiça, mas com intenções destrutivas.
  • Arco: Símbolo de poder e vitória, mas também de conquista por meios enganosos.
  • Coroa: Representa autoridade e domínio, ou falsas promessas de poder e sucesso.
  • Vencedor: Indica um líder com aparência de sucesso, mas com intenções que podem ser destrutivas.

Veja mais sobre o cavalo branco do Apocalipse.

2º. O cavaleiro no cavalo vermelho

Em Apocalipse 6:4, o segundo cavaleiro aparece montado em um cavalo vermelho, simbolizando guerra e violência.

Então saiu outro cavalo; e este era vermelho. Seu cavaleiro recebeu poder para tirar a paz da terra e fazer que os homens se matassem uns aos outros. E lhe foi dada uma grande espada.
- Apocalipse 6:4

cavaleiro do apocalipse no cavalo vermelho

Ele recebe uma grande espada e o poder de tirar a paz da terra, provocando conflitos e derramamento de sangue. O vermelho, associado ao sangue e ao fogo, destaca o impacto devastador da guerra. Essa visão ecoa as palavras de Jesus em Mateus 24:6-7, que descreve guerras como um dos sinais dos últimos tempos.

Vocês ouvirão falar de guerras e rumores de guerras, mas não tenham medo. É necessário que tais coisas aconteçam, mas ainda não é o fim.
- Mateus 24:6

Esse cavaleiro nos faz refletir sobre o custo humano e espiritual dos conflitos. As guerras não apenas destroem vidas, mas também afastam as pessoas da paz que Deus oferece. Como cristãos, somos chamados a ser pacificadores e a orar por justiça e reconciliação (Mateus 5:9).

Essa visão nos lembra que as divisões e rivalidades humanas não podem trazer verdadeira paz; somente Cristo, o Príncipe da Paz, pode restaurar harmonia em um mundo cheio de ódio e violência.

Simbologia e significado do cavaleiro no cavalo vermelho:

  • Cavalo vermelho: Representa guerra, violência e derramamento de sangue, causando destruição e divisão.
  • Cavaleiro: Simboliza o poder de causar conflito, destruição e tirar a paz da terra.
  • Espada: Símbolo de violência e guerra, usada para destruir e espalhar o caos.
  • Vermelho: Cor associada ao sangue, destacando a intensidade e o sofrimento causado pelos conflitos.
  • Tirar a paz: Reflete o impacto devastador da guerra, que destrói a harmonia e a unidade.

3º. O cavaleiro no cavalo preto

O terceiro cavaleiro, descrito em Apocalipse 6:5-6, monta um cavalo preto e carrega uma balança, representando fome e escassez.

Quando o Cordeiro abriu o terceiro selo, ouvi o terceiro ser vivente dizer: "Venha!" Olhei, e diante de mim estava um cavalo preto. Seu cavaleiro tinha na mão uma balança.
Então ouvi o que parecia uma voz entre os quatro seres viventes, dizendo: "Um quilo de trigo por um denário e três quilos de cevada por um denário, e não danifique o azeite e o vinho!"
- Apocalipse 6:5-6

O texto menciona o alto custo do trigo e da cevada, enquanto o azeite e o vinho são poupados. Isso reflete uma crise econômica e social, onde os bens essenciais são inacessíveis para muitos, mas itens de luxo permanecem disponíveis, acentuando a desigualdade.

o cavaleiro do apocalipse no cavalo preto

Esse cavaleiro nos desafia a refletir sobre como a injustiça e a desigualdade impactam o mundo. A fome é um resultado tanto de crises naturais quanto de má administração humana. Para o cristão, isso é um chamado à ação: cuidar dos necessitados, partilhar recursos e viver com compaixão.

A balança lembra que Deus é justo e, no tempo certo, trará equilíbrio e justiça para todos. É também um lembrete de depender de Deus para suprir nossas necessidades.

O meu Deus suprirá todas as necessidades de vocês, de acordo com as suas gloriosas riquezas em Cristo Jesus.
- Filipenses 4:19

Simbologia e significado do cavaleiro no cavalo preto:

  • Cavalo preto: Representa fome, escassez e crises econômicas, refletindo desigualdade e privação.
  • Cavaleiro: Simboliza a autoridade sobre a escassez e o controle dos recursos essenciais.
  • Balança: Símbolo de julgamento e equilíbrio, representando a medição restrita de alimentos e recursos.
  • Trigo e cevada: Indicativos de escassez e altos preços, revelando a crise alimentar e desigualdade.
  • Azeite e vinho: Itens de luxo preservados, contrastando com a escassez dos bens essenciais para muitos.

4º. O cavaleiro no cavalo amarelo

O quarto cavaleiro, montado em um cavalo pálido, é chamado de “Morte”, e o Hades o segue (Apocalipse 6:8).

Olhei, e diante de mim estava um cavalo amarelo. Seu cavaleiro chamava-se Morte, e o Hades o seguia de perto. Foi-lhes dado poder sobre um quarto da terra para matar pela espada, pela fome, por pragas e por meio dos animais selvagens da terra.
- Apocalipse 6:8

Sua cor, pálida como a de um cadáver, simboliza morte e doença. Ele recebe autoridade para destruir com espada, fome, pestes e ataques de animais selvagens. Esse cavaleiro representa o impacto final do pecado: a morte física e espiritual.

cavaleiro apocalipse cavalo amarelo

Esse cavaleiro nos alerta para a fragilidade da vida humana e as consequências do afastamento de Deus. No entanto, para os que seguem Cristo, há esperança além da morte, pois Ele venceu o pecado e a morte (1 Coríntios 15:54-55).

Essa visão reforça a urgência de compartilharmos o Evangelho, para que outros conheçam a vida eterna em Cristo. Mesmo em meio à destruição, a promessa de Deus é clara: em Cristo, há salvação e vitória final sobre a morte.

Simbologia e significado do cavaleiro no cavalo amarelo:

  • Cavalo amarelo: Cor pálida simboliza a morte e doenças, refletindo a destruição física e espiritual.
  • Cavaleiro (Morte): Representa a morte física e espiritual, com autoridade para destruir pela violência e fome.
  • Hades: Acompanhante da Morte, simboliza o reino dos mortos, seguindo a destruição causada pelo cavaleiro.
  • Espada: Símbolo de violência e morte, refletindo a destruição causada por conflitos e batalhas.
  • Fome: Representa escassez e sofrimento, contribuindo para a morte em grande escala.
  • Pragas: Simbolizam doenças e pestes que espalham a morte e o sofrimento pelo mundo.
  • Animais selvagens: Representam a destruição pela natureza, um meio de propagação da morte e caos.

Os cavaleiros do apocalipse refletem o juízo de Deus, alinhando-se com outras passagens proféticas, como os discursos de Jesus sobre os últimos dias (Mateus 24 e Lucas 21). Eles alertam para crises humanas, espirituais e naturais que antecederão o retorno de Cristo. Os cavaleiros também ecoam advertências sobre os efeitos do pecado no mundo, desde a queda no Éden.

Essa passagem em Apocalipse 6 não deve causar medo, mas lembrar da soberania de Deus e da importância de estarmos em comunhão com Ele. Apesar dos julgamentos, a Bíblia promete esperança para os que confiam em Cristo, pois Ele é o Cordeiro verdadeiro que venceu o pecado, a morte e nos trouxe a Salvação.

ATENÇÃO: As imagens deste conteúdo são apenas interpretações ilustrativas

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Veja algumas ilustraçoes dos cavaleiros do Apocalipse feitas por mim no Blog Artes de Joice Souza R.: 

O 1º Cavaleiro do Apocalipse (Branco)
O 2º Cavaleiro do Apocalipse (Vermelho)
O 3º Cavaleiro do Apocalipse (O do cavalo Preto) PESTE


07/11/2025

Viva João Carlos Marinho

  Fonte: http://blogdoleheitor.sintaxe.com.br/viva-joao-carlos-marinho


Soube da morte de João Carlos Marinho, fiquei muito triste e fui reler o post do clube de leitura que fizemos, junto com o professor Carlos e seus alunos da EMEF Vera Lúcia Carnevalli Barreto, de São José do Campos, com o autor de “O gênio do crime”. Nós até entrevistamos o escritor! Obrigado, João Carlos Marinho! Quem quiser, pode ler o post desse clube, nesse link:  http://blogdoleheitor.sintaxe.com.br/joao-carlos-marinho-no-clube-de-leitura/


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Livros de João Carlos Marinho:

http://www.globaleditora.com.br/joaocarlosmarinho/


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*  Comprar o livro  O Gênio do Crime na Amazon







04/11/2025

Personagens Esquecidos 6: Nico Demo

  Fonte: https://arquivosturmadamonica.blogspot.com/2014/03/personagens-esquecidos-6-nico-demo.html




Nico Demo foi um personagem incorreto criado ainda nas tiras de jornais e que se enquadra na galeria de personagens esquecidos. Nessa postagem, falo sobre ele.

Criado em 1966 em tiras do "Jornal da Tarde", de São Paulo, ele era um garoto levado com um humor sarcástico. Tinha um cabelo que se parecia com chifres e se vestia com roupas pretas bem formais. Ele era um capeta em pessoa, dai o nome Nico Demo, de demônio. Fazia o tipo de bom coração, com a intenção de sempre querer ajudar os outros, mas acabava atrapalhando em vez de ajudar, causando muitas confusões. 

Até ficava a dúvida do leitor se ele tinha mesmo a boa intenção ou se ele realmente queria aprontar com os outros. Era uma coisa muito comum nas tiras e histórias feitas pelo Mauricio do leitor usar a imaginação, interpretando como quisesse, e com o Nico Demo não era diferente.

Tirinha tirada do pocket L&PM "Nico Demo - Aí vem encrenca" (2011)

Além de tiras assim, tinham também em que o Nico Demo era egocêntrico, egoísta, tirando proveito com o sofrimento dos outros. Ele também se passava pelo inocente, não deixando claro se ele estava sendo inocente realmente ou fingindo ser só pra se dar bem. E em outras oportunidades, é confirmado que o  que ele quer mesmo é perturbar os outros. Interessante que raramente ele se dava mal, apenas os outros.

Ele fazia coisas do tipo: mendigo levantava braço pra pedir esmola e o Nico Demo dava um aperto de mão; ele ajuda velhinha a atravessar a rua, mas segura só a luva e ela acaba sendo atropelada; vê mulher caindo do prédio e em vez de socorrer corre para pegar um binóculos para ver a queda; a menina o paquera piscando pra ele e ele assopra os olhos dela; exibe uma faixa para sorrir sempre, enquanto passa um funeral carregando caixão, entre outras. Curiosamente, nessa tirinha apareceu o Charlie Brown, da turma do Snoopy:

Tirinha tirada do pocket L&PM "Nico Demo - Aí vem encrenca" (2011)

O que chamava atenção que suas tiras sempre eram mudas, o que tornava bem interessante, de fazer graça só com as ações e permitir que os leitores entendam a piada só através dos desenhos. Os traços também eram com um efeito serrilhado, meio tremido, como se não tivessem arte-final.

Por causa dessas travessuras todas, o Nico Demo foi o primeiro caso que o Mauricio sofreu censura. Apesar de que nos anos 60 ele ter mais liberdade nas suas criações, já que não tinha a onda do politicamente correto, mas tinha gente que não gostava e implicava com as travessuras do Nico Demo. O "Jornal da Tarde" pediu ao Mauricio amenizar as situações incorretas do personagem nas tiras. Mauricio não aceitou e passou a levar as tiras para o jornal "Folha da Tarde". 

Só que ainda assim continuava a receber críticas e recebendo cartas para que ele mudasse o personagem. Diante de tantas reclamações, para não tirar a essência do Nico Demo e mudá-lo completamente, Maurício simplesmente parou de produzir de vez tiras do personagem, deixando, com isso, no limbo do esquecimento. Afinal, a graça do Nico Demo era aprontar com os outros, mesmo de forma indireta, e tirar isso das tiras, iria descaracterizá-lo. 

Tirinha tirada do pocket L&PM "Nico Demo - Aí vem encrenca" (2011)

Nico Demo ainda aparecia nas propagandas da "Cica" tanto da TV, quanto dos gibis, contracenando com a Turma da Mônica, sendo a maioria das vezes apenas como figurante. As propagandas da "Cica" nos gibis da turma naquela época eram em quadrinhos, como se fosse uma história (provavelmente reproduzindo para os gibis o que passava na TV), então colocavam o Nico Demo em um quadrinho, por exemplo. Com uma curiosidade interessante que ele falou em uma dessas propagandas, que mostro abaixo, diferente das suas tiras antigas.

Propaganda tirada de 'Mônica nº 4' (Ed. Abril, 1970)

Após essas propagandas e sem tiras novas, Nico Demo sumiu de vez sem referência sequer em lugar nenhum. E permaneceu assim, até que em 2003, foi lançado o  livro "As Melhores Tiras do Nico Demo" pela Editora Globo compilando aquelas tiras de jornais dos anos 60. Um presente para os fãs, que aguardam algum material dele há anos. Esse livro tinha capa cartonada e papel de miolo offset, 96 páginas e com formato retangular 13,5 x 21 cm. Era bem semelhante aos livros de tiras da Editora Abril dos anos 70. Abaixo, a capa desse livro:

Livro "As Melhores Tiras do Nico Demo" (Ed. Globo, 2003)

Após esse livro, ele voltou a ser lembrado e apareceu em participações especiais em 2 ocasiões, mais como forma de homenagem e dar sentido às histórias. A primeira foi na história "O Arrependiz", uma paródia ao programa de TV "O Aprendiz" da Record, de Cebolinha # 229 (Ed. Globo, 2005), aparecendo só no quadrinho final, junto com outros personagens esquecidos dos anos 60 para dar graça na história.

Depois dessa, voltou a aparecer em "Lostinho- Perdidinhos nos quadrinhos" (Ed. Panini, 2007), junto com vários personagens esquecidos que estavam presos na ilha todos esses anos. Também foi apenas participação com aparições rápidas.

Cena tirada de "Lostinho - perdidinhos nos quadrinhos" (Ed. Panini, 2007)

Em 2011, foi lançado também um pocket L&PM "Nico Demo - Aí vem encrenca". Esse pocket foi composto de 240 tirinhas, sendo 2 em cada página, assim como os outros da série. Todas sensacionais, mostrando a verdadeira face do Nico Demo. Aliás, esse pocket seria lançado na Panini em 2009, junto com mais 4 pockets diferentes, só que de última hora foram cancelados e esses títulos que seriam lançados pela Panini, foram lançados pela L&PM a partir de 2009 aos poucos.

Capa do Pocket L&PM "Nico Demo - Aí vem encrenca" (2011)

Então, como o pocket seria lançado em 2009, também nesse ano, Nico Demo finalmente passou a ter histórias solo inéditas nos gibis da Panini. Era, então, a volta de vez do personagem depois de quase 40 anos sem produzir nada novo do personagem, já que os outros materiais lançados eram reedições ou apenas participações. Nem na Editora Abril tiveram histórias dele.

História tirada de 'Cebolinha nº36' (Ed. Panini, 2009)

A partir daí, em vários gibis, passaram a ter histórias de 1 ou 2 páginas e mudas também, como eram nas tiras dos anos 60. Eles colocavam os traços serrilhados, como se não tivesse feito a mão livre sem arte-final, igual às tiras antigas. 

Porém, sua personalidade estava um pouco mudada por causa do politicamente correto, como era de se esperar. Ele até continuava com a sua intenção de ajudar os outros, da sua maneira torta, só que de uma formam mais suave do que antigamente. Não seria possível, por exemplo, fazer brincadeiras com velhinha sendo atropelada na rua, defunto e caixão.

História tirada de 'Magali nº 49' (Ed. Panini, 2011)

As vezes ele exercia alguma profissão. Além disso, diferente das tiras antigas, ele passou a se dar mal nas suas tentativas de ajudar os outros, como forma de castigo e ensinar que ajudar de maneira torta é errado e não pode. Tudo do jeito que a patrulha do politicamente correto gosta. Pode ser até que seja a versão que poderia ser, caso o Mauricio aceitasse amenizar o personagem nos anos 70. O que não fizeram naquela época, passaram a fazer nos últimos anos.

História tirada de 'Cebolinha nº 68' (Ed. Panini, 2012)

Nesse período, ele chegou até a aparecer na capa e na história de abertura da 'Mônica # 50', de 2011, como participação em uma ilha junto co outros personagens que estão no limbo do esquecimento. Em "Clássicos do Cinema # 34 - Batmenino & Cascóbim", de 2012, ele contracenou com a Turma da Mônica, como vilão imortal Ra's Al Ghul e nessa ocasião falando e mais uma vez com referência que ele era um personagem esquecido.

História tirada de 'Clásicos do Cinema nº 34' (Ed. Panini, 2012)

Continuaram com histórias novas com o Nico Demo até em 2012, que, inclusive foi o ano que mais produziram histórias inéditas suas, quase todos os gibis tinham alguma dele. Uma das suas últimas histórias em 2012 (considerada mais uma tirinha) nessa nova fase foi essa, de 'Mônica #72'. Essa imagem enviada pelo Washington Brito:

História tirada de 'Mônica nº72' (Ed. Panini, 2012)

E mais recentemente teve participação em 'Cebolinha # 500', de 2014 em dois momentos: uma aparição no pôster na parede do estúdio, e outra junto com outros esquecidos na história do seu Juca. Já histórias solo, não. E em 'Mônica # 87' teve uma história solo de 3 quadrinhos, considerada uma tirinha, marcando a sua volta aos gibis, depois de quase um ano sumido. É que em 2013 praticamente não vimos suas histórias nos gibis.

É natural que tenha menos histórias com ele porque os gibis estão cada vez mais com uma pegada mais politicamente correta. Então, mesmo com atitudes mais amenas, não se pode afirmar que ele fique em definitivo ou não.. Quem sabe, também façam outro pocket da L&PM, caso tenham tiras que ficaram de fora do pocket lançado.

Termino mostrando as capas de alguns gibis citados das histórias do Nico Demo dessa postagem:

Capas: 'Cebolinha nº 229' (2005), 'Lostinho' (2007), 'Cebolinha nº 36' (2009), 'Magali nº 49' (2011), 'Mônica nº 50' (2011), 'Cebolinha nº 68' (2012), 'Clássicos do Cinema nº 34' (2012), 'Mônica nº 72' (2012)