Fonte: https://phamynthus.wordpress.com/2024/09/01/so-uma-caveira/
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Lá fora, a noite era fria e húmida, mas, na pequena sala de estar da Vila Lakesnam, as gelosias estavam cerradas e o fogo brilhava alegremente. Pai e filho estavam jogando xadrez, e o primeiro, que possuía ideias sobre o jogo, envolvendo uma mudança radical de táctica, punha o rei em tão desesperados e desnecessários perigos que provocou comentários até da velha senhora de cabelos brancos, que estava fazendo, placidamente, croché perto do fogo.
— Escuta esse vento! — disse o Senhor White, que, tendo notado um erro fatal quando já era tarde demais, desejava evitar, com habilidade, que o filho o notasse também.
— Estou escutando — disse o outro, observando atentamente o tabuleiro, ao mesmo tempo que estendia a mão. — Xeque!
— Estava achando muito difícil que ele viesse esta noite — disse o pai, com a mão erguida sobre o tabuleiro.
— Mate! — prosseguiu o filho.
— Isso é o que tem de pior, viver assim tão afastado! — vociferou o Senhor White, com súbita e inesperada violência; — De todos os lugares idiotas, lamacentos e fora de mão para se morar, este é o pior. O caminho é um atoleiro e, a estrada, um rio. Não sei o que essa gente pensa. Acho que, porque somente duas casas da estrada estão alugadas, entendem que não tem importância.
— Não te importes, querido — disse-lhe a esposa, conciliadoramente; — talvez ganhes a próxima partida.
O Senhor White ergueu bruscamente a vista, mesmo em tempo de interceptar um olhar de compreensão, trocado entre mãe e filho. As palavras morreram-lhe nos lábios, e escondeu um sorriso contrafeito, na barba rala, grisalha.
— Aí está ele! — exclamou Herbert White, ao ouvir o portão bater com estrondo e pesados passos, que vinham em direção à porta.
O velho levantou-se com solicitude hospitaleira, e, enquanto abria a porta, puderam ouvi-lo lastimando-se do tempo, com o recém-chegado. Este também se lastimou, de maneira que a Senhora White disse: "Chut! Chut!" e tossiu de leve, quando o marido entrou no aposento, seguido por um homem alto e corpulento, de olhos salientes e faces rubicundas.
— Sargento-major Morris — disse, apresentando-o.
O major trocou apertos de mão, e, tomando a cadeira oferecida junto ao fogo, observou, com satisfação, que o anfitrião trazia uísque e copos e punha uma pequena chaleira de cobre no fogo.
Ao terceiro copo, seus olhos ficaram mais brilhantes e começou a falar, enquanto o pequeno círculo da família olhava, com agudo interesse, aquele visitante de terras longínquas, que encostava os ombros robustos no espaldar da cadeira, falando de cenas estranhas e feitos denodados, de guerras e pestes e de povos exóticos.
— Vinte e um anos disto — disse o Senhor White, acenando, com a cabeça, para a esposa e o filho.
— Quando partiu, era um belo moço, no armazém. Agora, olhem para ele.
— Não parece ter-se dado muito mal — observou a Senhora White delicadamente.
— Eu gostaria de ir à Índia, também, — disse o velho cavalheiro — só para ver como aquilo é, sabem?
— Foi melhor ficar por aqui mesmo — retrucou o major, abanando a cabeça. Pousou o copo vazio e, suspirando de leve, sacudiu-a outra vez.
— Gostaria de ver aqueles velhos templos, e faquires, e pelotiqueiros — insistiu o velho. — O que era que ia começar a contar-me no outro dia, a respeito de uma mão de macaco, ou coisa que o valha, Morris?
— Nada — respondeu o soldado, muito depressa. — Pelo menos, nada que valha a pena ouvir-se.
— Mão de macaco? — indagou a Senhora White, com curiosidade.
— Bem, apenas o que se poderia chamar magia, talvez — respondeu o major, de maneira vaga.
Seus três ouvintes curvaram-se para a frente, interessados. O visitante, alheadamente, levou o copo vazio aos lábios e depois tornou a pousá-lo. O anfitrião encheu-lhe de novo.
— À simples vista — disse o major, remexendo no bolso — é apenas uma pequena mão comum, seca e mumificada.
Tirou qualquer coisa do bolso e exibiu-a. A senhora White recuou, com uma careta, mas o filho, pegando no objeto, examinou-o com curiosidade.
— E que é que há de especial nela? — perguntou o Senhor White, tomando-a das mãos do filho e pousando-a sobre a mesa, depois de examiná-la.
— Possui um encantamento, que lhe foi posto por um velho faquir — explicou o major — um homem muito velho. Queria mostrar que o destino segue a vida dos homens e que aqueles que interferem com ele o fazem para seu próprio mal. Pôs-lhe um encantamento, para que três homens distintos pudessem satisfazer, cada um, três desejos.
Suas maneiras eram tão impressionantes que os ouvintes tinham a consciência de que os seus risos alegres soavam um pouco falsos.
— Bem, e por que não formula três desejos, senhor? — perguntou Herbert White, inteligentemente.
O soldado olhou-o da maneira que um homem de meia-idade olha para a mocidade presunçosa.
— Já formulei... — disse, devagar, e o seu rosto corado empalideceu.
— E obteve, realmente, que esses três desejos se realizassem? — perguntou o Senhor White.
Obtive — respondeu o major, e o copo tilintou de encontro aos seus dentes brancos.
— E alguém mais já desejou?
— O primeiro homem também satisfez seus três desejos, sim... — foi a resposta. — Não sei quais foram os dois primeiros, mas o terceiro foi a morte. Foi assim que obtive a mão.
O seu tom era tão grave que um silêncio caiu sobre o grupo.
— Se já obteve os seus três desejos, não lhe serve para mais nada; então, Morris, — disse o velho, por fim. — Para que a conserva?
O soldado abanou a cabeça.
— Fantasia, suponho — disse, devagar. — Tive uma vaga ideia de vendê-la, mas não creio que o faça. Já causou infortúnios demais. Além disso, ninguém a compraria. Alguns acham que é uma história fantástica, e os que acreditam alguma coisa dela, querem experimentar primeiro e pagar-me depois.
— Se pudesse formular outros três desejos, — perguntou o velho, fitando-o atentamente — fá-lo-ia? — Não sei, — respondeu o outro — não sei...
Pegou na mão, e, balançando-a entre o indicador e o polegar, jogou-a de súbito no fogo. White, com um pequeno grito, curvou-se e tirou-a.
— É melhor que a deixe queimar-se — sentenciou o soldado, solenemente.
— Se não a quer, Morris, — pediu o velho — dê-me-a.
— Não farei isso — respondeu o amigo, com rabugice. — Atirei-a ao fogo. Se a quiser guardar, não me censure pelo que possa acontecer. Jogue-a no fogo de novo, como um homem de juízo.
O outro abanou a cabeça e examinou atentamente sua nova aquisição.
— Como se faz? — perguntou.
— Segura-se levantada, com a mão direita, e faz-se o pedido em voz alta — disse o major — mas, previno-o... contra as consequências.
— Parece coisa das Mil e uma noites ! — exclamou a Senhora White, enquanto se levantava e começava a preparar tudo para a ceia. — Não achas que poderias desejar quatro mãos para mim?
O marido tirou o talismã do bolso e, então, os três desataram a rir, enquanto o major, com um ar de susto no rosto, o segurava pelo braço.
— Se quer formular um pedido, — disse-lhe, severamente — faça-o de maneira inteligente.
O Senhor White deixou cair de novo o talismã no bolso, e, chegando as cadeiras, conduziu o amigo à mesa. Com o entretenimento da ceia, o objeto foi em parte esquecido, e, depois, os três ficaram sentados, escutando, atentos, uma segunda série das aventuras do soldado da Índia.
* * *
— Se a história a respeito da mão do macaco não for mais verdadeira do que as outras que ele nos esteve contando — disse Herbert, quando a porta se fechou às costas do hóspede, apenas em tempo para este apanhar o último comboio — não conseguiremos grande coisa com ela.
— Deste-lhe alguma coisa por ela, meu velho? — perguntou a Senhora White, olhando para o marido, com atenção.
— Uma bagatela — respondeu ele, corando de leve. — Não queria aceitar, mas obriguei-o. E insistiu de novo comigo para que a jogasse fora.
— Não faça isso! — exclamou Herbert, com pretenso horror. — Ora essa! Vamos ficar ricos, famosos e felizes. Deseje ser imperador, papai, para começar; depois, não poderá ser dominado pela esposa.
Correu em volta da mesa, perseguido pela indignada Senhora White, armada de uma vassoura.
O Senhor White tirou a mão de macaco do bolso e olhou para ela, indeciso.
— Não sei o que hei de desejar, esta é a verdade... — disse, lentamente. — Parece-me que tenho tudo o que quero.
— Se liquidasse a hipoteca da casa, seria completamente feliz, não é verdade? — sugeriu Herbert, pousando -lhe a mão no ombro. — Pois bem, deseje duzentas libras, então; é justamente o que falta.
O pai, sorrindo, meio envergonhado da própria credulidade, ergueu o talismã, enquanto o filho, com ar solene, que um piscar de olhos à mãe desmentia, sentava-se ao piano e fazia soar alguns acordes majestosos.
— Desejo ter duzentas libras — pediu o velho, em voz alta.
Uma bela ressonância do piano saudou aquelas palavras, interrompida por um grito assustado do velho. O filho e a esposa correram para ele.
— Mexeu-se!... — exclamou ele, com um olhar de receio para o objeto que jazia no chão. — Quando formulei o desejo, contraiu-me na mão qual uma cobra.
— Bem, não vejo o dinheiro... e aposto que nunca o verei — atalhou o moço.
— Deve ter sido impressão tua, meu velho — disse a esposa, olhando para ele com ansiedade.
O marido abanou a cabeça.
— Não importa, porém. Não aconteceu nada de mau, mas levei um choque, assim mesmo.
Sentaram-se novamente, junto ao fogo, enquanto os dois homens acabavam de fumar os seus cachimbos. Lá fora, o vento estava mais forte do que nunca, e o velho teve um sobressalto nervoso ao som de uma porta batendo no primeiro andar. Um silêncio insólito e deprimente pesou sobre os três, e prolongou-se até que o casal de velhos se levantou para recolher-se.
— Espero que encontre o dinheiro amarrado em um grande maço, no meio da cama, — gracejou Herbert, ao curvar-se para dizer-lhes boa noite — e qualquer coisa terrível agachada em cima do guarda-roupa, espiando-o, enquanto o senhor se apossa da fortuna mal ganha.
II
Na manhã seguinte, na claridade do sol de Inverno iluminando a mesa do café, Herbert riu-se do susto dos pais. Havia um ar de saudável banalidade, no aposento, que faltava na noite anterior, e a pequena mão de macaco, suja e enrugada, estava pousada sobre o aparador. Com um pouco caso que não demonstrava grande fé nas suas virtudes.
— Suponho que todos os soldados são a mesma coisa — disse a Senhora White. — Que ideia, a nossa, de dar ouvidos a tais contrassensos! Como poderiam realizar-se simples desejos, hoje em dia? E, se pudessem, como haviam de fazer-te mal duzentas libras, meu velho?
— Podiam cair-lhe do céu na cabeça — chasqueou o frívolo Herbert.
— Morris contou que as coisas aconteciam tão naturalmente — disse o pai — que se poderia, querendo, atribuí-las a mera coincidência.
— Bem, não vá gastar o dinheiro todo antes que eu esteja de volta — recomendou Herbert, levantando-se da mesa. — Receio que se transforme num mesquinho avarento e que tenhamos de desconhecê-lo.
A mãe riu-se, e, acompanhando-o até a porta. Observou-o enquanto seguia pela estrada abaixo, e depois, voltando à mesa do café, divertiu-se muito às custas da credulidade do marido. O que não a impediu de precipitar-se para a porta, quando o carteiro bateu, e nem tampouco de resmungar qualquer coisa sobre majores reformados, de hábitos biliosos, quando verificou que o correio lhe trazia apenas uma conta do alfaiate.
— Herbert vai dizer mais algumas pilhérias, espero, quando voltar — disse ela, quando se sentavam para jantar.
— Imagino que sim, — concordou o Senhor White, servindo-se de cerveja; — mas, seja como for, aquela coisa mexeu-se na minha mão; isso eu posso jurar.
— Pensaste que se moveu — observou a velha senhora, meigamente.
— Digo-te que se mexeu! — replicou o outro. — Não resta a menor dúvida. Eu tinha... que foi?
A esposa não respondeu. Estava a observar os misteriosos movimentos de um homem, lá fora, que, espreitando de maneira indecisa para a casa, parecia estar tentando resolver-se a entrar. Em conexão mental com as duzentas libras, notou que o estranho estava bem vestido e usava uma cartola de seda, brilhante e nova. Três vezes parou ao portão, mas, depois, afastou-se de novo. Da quarta vez, parou com a mão pousada nele, e, com súbita resolução, abriu-o e caminhou em direção à casa. A Senhora White, no mesmo instante, levou as mãos às costas e, desatando apressadamente os cordões do avental, colocou aquela útil peça de roupa sob a almofada da sua cadeira.
Trouxe o estranho, que parecia pouco à vontade, para dentro do aposento. Ele olhava furtivamente para a Senhora White, e escutava, com ar preocupado, enquanto a velha senhora pedia desculpas pela aparência da sala, e pelo sobretudo do marido, um agasalho que, geralmente, ele reservava para o jardim. Ela esperou, tão pacientemente quanto o seu sexo o permitia, que o homem desembuchasse o que tinha para dizer, mas, a princípio, ele conservou-se num silêncio embaraçado. — Pediram-me... para vir aqui — disse, por fim, e curvou-se para tirar um fiapo de algodão das calças. — Venho de parte de Naw & Naggins.
A velha senhora sobressaltou-se.
— Que foi? — perguntou, com a respiração alterada. — Aconteceu alguma coisa a Herbert? Que é?
Que é?
O marido interpôs-se.
— Vamos, vamos, minha velha — disse, apressadamente. — Senta-te, e não tires conclusões antecipadas. Não é portador de más notícias, estou certo, senhor — e observava o outro atentamente.
— Sinto muito... — começou o visitante.
— Está ferido? — perguntou a mãe.
O visitante curvou-se, confirmando.
— Gravemente ferido, mas já não sofre coisa alguma.
— Oh, graças a Deus! — exclamou a velha senhora, juntando as mãos. — Graças a Deus, por isso. Graças ...
Interrompeu-se de súbito, ao perceber o sinistro significado da afirmativa do outro e viu a terrível confirmação dos seus receios na cara compungida que ele fez. Suspendeu a respiração, e voltando-se para o marido, menos vivo em compreender do que ela, pousou a mão trémula na dele.
Houve um longo silêncio.
— Foi colhido por uma máquina — disse o visitante por fim, em voz baixa.
— Colhido por uma máquina... — repetiu o Senhor White, de maneira vaga. — Sim ...
Ficou sentado, olhando confusamente pela janela; e, tomando a mão da esposa entre as suas, apertou-a como costumava fazer nos velhos tempos em que se namoravam, quase quarenta anos atrás.
— Era o único que nos restava — disse, voltando-se gentilmente para o visitante. — É duro.
O outro tossiu, e, levantando-se, caminhou lentamente até à janela.
— A firma encarregou-me de transmitir-lhes a sua sincera simpatia pela grande perda que sofreram — disse, sem voltar a olhar. — Peço-lhes para compreenderem que sou apenas um empregado e que estou a obedecer a ordens recebidas.
Não houve resposta; a face da anciã estava branca, os olhos vítreos, a respiração mal audível; no rosto do marido, havia uma expressão que devia ser semelhante à do seu amigo major ao entrar pela primeira vez em ação.
— Devo dizer-lhes que Naw & Naggins negam qualquer responsabilidade — continuou o outro. — Não admitem qualquer obrigação, mas, em consideração aos serviços prestados por seu filho, desejam oferecer-lhes certa importância em dinheiro, a título de compensação.
O Senhor White deixou cair a mão da esposa, e, pondo-se em pé, fitou o visitante com um olhar horrorizado. Seus lábios secos balbuciaram a palavra:
— Quanto?
— Duzentas libras — foi a resposta.
Inconsciente do grito da esposa, o ancião sorriu debilmente, estendeu as mãos feito um homem cego, e caiu, qual um farrapo, inerte, no assoalho.
III
No vasto cemitério novo, a umas duas milhas de distância, os anciãos enterraram o morto querido e voltaram para a casa, agora imersa em sombras e silêncio. Acontecera tudo tão rapidamente que, a princípio, mal podiam compreendê-lo, e tinham ficado num estado de expectativa, como se alguma coisa mais devesse acontecer — alguma coisa que aliviasse aquela carga demasiado pesada para os seus velhos corações suportarem. Mas os dias passaram-se, e a cruel expectativa cedeu lugar à resignação — a resignação irremediável dos velhos, às vezes erroneamente chamada apatia. Às vezes, mal trocavam uma palavra, porque agora não tinham sobre que falar, e os seus dias eram longos e enfadonhos.
Foi cerca de uma semana depois daquilo que o ancião, acordando de súbito, uma noite, estendeu a mão e verificou que se achava sozinho na cama. O quarto estava em trevas e vinha da janela um som de soluços abafados. Sentou-se na cama e escutou.
Vem... — disse, ternamente. — Vais apanhar frio.
Mais frio estará sentindo o meu filho — respondeu a anciã, e soluçou mais alto.
O som dos soluços morreu nos ouvidos dele. A cama estava quente e os seus olhos pesados de sono. Dormitou um pouco, agitado, e depois adormeceu, até que um súbito grito selvagem da esposa o acordou em sobressalto.
— A mão do macaco! — gritava ela, selvagemente. A mão do macaco!
Ele despertou, alarmado.
— Onde? Onde está? Que foi que aconteceu?
Ela veio cambaleando pelo quarto, em direção a ele.
— Quero-a — disse, calmamente. — Tu não a destruíste?
— Está na sala, na prateleira — respondeu ele, muito admirado. — Porquê?
Ela chorava e ria-se ao mesmo tempo e, curvando-se, beijou-o na face.
— Só agora me lembrei disso — disse, histericamente. — Por que não me lembrei antes? Por que não te lembraste tu?
— Lembrar de quê?
— Dos outros dois desejos — respondeu ela, rapidamente. — Só formulámos um.
— E não foi bastante? — perguntou ele, com violência.
— Não! — exclamou ela, triunfalmente. — Formularemos mais um. Vai lá em baixo, traze-a depressa, e manifesta o desejo que teu filho esteja vivo de novo.
O homem sentou-se na cama e afastou as cobertas de sobre os membros trémulos.
— Santo Deus, estás louca!
— Vai buscá-la, — insistiu ela. — Vai buscá-la e pede. Oh, meu filho, meu filho!
O marido riscou um fósforo e acendeu a vela.
— Volta para a cama — disse, irresolutamente. — Não sabes o que estás a dizer.
— Obtivemos a realização do primeiro desejo, — disse a anciã, com fervor; — por que não havemos de obter o segundo?
— Uma coincidência... — gaguejou o ancião.
— Vai buscá-la e pede! — gritou a anciã, arrastando-o para a porta.
Ele desceu, no escuro, tateou o caminho para a sala e depois para o aparador. O talismã estava no seu lugar, e um horrível medo de que o desejo não formulado trouxesse o filho mutilado à sua presença, antes que ele pudesse fugir do aposento, apoderou-se do seu espírito. Susteve a respiração, quando viu que perdera a direção da porta. Com a testa húmida de suor, encontrou o caminho em volta da mesa, e foi-se arrastando, ao longo da parede, no estreito corredor, com aquela coisa nojenta na mão.
Até o rosto da esposa pareceu-lhe mudado, quando entrou no quarto. Estava branco e expectante, e, para seu receio, parecia ter um ar sobrenatural. Teve medo dela.
— Pede! — gritou ela, em voz forte.
— É uma tolice inútil — esquivou-se ele.
— Pede! — repetiu a esposa.
E ergueu a mão.
— Quero o meu filho vivo de novo.
O talismã caiu no assoalho e o velho fitou-o, estremecendo. Depois, deixou cair-se, tremendo, numa cadeira, enquanto a esposa, com os olhos ardendo, se dirigia à janela e levantava a gelosia.
Ficou sentado até sentir-se enregelado de frio, olhando de vez em quando para a figura da anciã, espreitando para fora pela janela. O coto da vela, que ardera até abaixo do anel do castiçal de porcelana, lançava sombras oscilantes sobre o teto e as paredes, até que, com uma palpitação mais forte do que as outras, extinguiu-se. O ancião, com indizível sensação de alívio pelo fracasso do talismã, voltou à cama, e, um minuto ou dois após, a anciã veio, silenciosa e apática, para junto dele,
Nenhum dos dois falou e ambos ficaram deitados silenciosamente, escutando o tique-taque do relógio, Um degrau da escada estalou e um camundongo assustado correu ruidosamente por dentro da parede. A escuridão era opressiva; depois de ficar algum tempo deitado, reunindo coragem, o marido pegou na caixa de fósforos e, riscando um, desceu as escadas para buscar uma vela.
No último degrau, o fósforo apagou-se, e ele parou para acender outro, mas, naquele momento, uma batida tão leve e furtiva que mal era audível, soou na porta da rua.
Os fósforos caíram-lhe das mãos. Ficou imóvel, com a respiração suspensa, até que a batida se repetiu. Então, voltou-se e correu velozmente até o quarto, fechando a porta atrás de si. Uma terceira batida ressoou pela casa.
— Que foi isto? — exclamou a anciã, sobressaltando-se.
— Um rato — disse o ancião, em voz trémula. — Um rato. Passou por mim, nas escadas.
A esposa sentou-se na cama, escutando. Uma batida forte ressoou pela casa.
— É Herbert! — gritou ela. — É Herbert!
Correu para a porta, mas o marido colocou-se diante dela e, agarrando-a pelo braço, segurou-a com força.
— Que vais fazer? — sussurrou, asperamente.
— É o meu filho, é Herbert! — gritou ela, lutando mecanicamente. — Tinha-me esquecido de que eram duas milhas de caminho. Por que me seguras? Solta-me! Tenho de abrir a porta.
— Pelo amor de Deus, não o deixes entrar! — disse o ancião, tremendo.
— Tens medo do teu próprio filho! — exclamou ela, debatendo-se. — Deixa-me ir! Já vou. Herbert, já vou!
Houve outra batida, e mais outra, A anciã, num súbito arranco, libertou-se a saiu a correr do quarto. O marido seguiu-a até ao patamar e chamou-a insistentemente, enquanto ela corria escadas abaixo. Ouvira a corrente de segurança ser retirada e a lingueta da chave abrir-se, rangendo. Depois, a voz da anciã, áspera e palpitante.
— O ferrolho! — gritou, alto. — Desce, não consigo chegar-lhe!
Mas o marido estava de gatas, arrastando-se ferozmente pelo chão, à procura da mão do macaco. Se pudesse ao menos encontrá-la, antes que aquela horrível coisa lá de fora entrasse! Uma verdadeira saraivada de batidas repercutiu pela casa, e ele ouviu o arrastar de uma cadeira, que a esposa estava a colocar junto da porta. Ouviu, ainda, o ruído do ferrolho ao ser aberto lentamente; no mesmo instante, achou a mão do macaco, e, freneticamente, bradou seu terceiro e último desejo.
As batidas pararam de súbito, embora o seu eco inundasse, ainda, a casa. Ouviu a cadeira sendo arrastada para trás e a porta abrir-se. Um vento frio encanou pelo vão das escadas, mas o longo e sonoro lamento de decepção e agonia da esposa deu-lhe coragem para descer até onde ela estava, e abriu a porta por trás dela. O lampião, que piscava em frente, mostrou-lhe a estrada, calma e deserta.
Suportara eu, enquanto possível, as mil ofensas de Fortunato, mas quando se aventurou ele a insultar-me, jurei me vingar. Vós que tão bem conheceis a natureza de minha alma, não havereis de supor, porém, que proferi alguma ameaça. Afinal, eu deveria vingar-me. Isto era um ponto definitivamente assentado, mas essa resolução definitiva excluía a ideia de risco. Eu devia não só punir, mas punir com impunidade. Não se desagrava uma injúria, quando o castigo recai sobre o desagravante. O mesmo acontece quando o vingador deixa de fazer sentir sua qualidade de vingador a quem o injuriou.
Fica logo entendido que nem por palavras, nem por fatos, dera eu causa a Fortunato de duvidar de minha boa vontade. Continuei, como de costume a fazer-lhe cara alegre, e ele não percebia que meu sorriso agora se originava da ideia de sua imolação.
O Fortunato tinha o seu lado fraco, embora, a outros respeitos, fosse um homem acatado e até temido. Orgulhava-se de ser conhecedor de vinhos. Poucos italianos têm o verdadeiro espírito do "conhecedor". Na maior parte, seu entusiasmo adapta-se às circunstâncias do momento e da oportunidade, para ludibriar milionários ingleses e austríacos.
Em matéria de pintura e ourivesaria era Fortunato, semelhante a seus patrícios, um impostor, mas em assunto de vinhos velhos era sincero. A este respeito, éramos da mesma força. Considerava-me muito entendido em vinhos italianos, e, sempre que podia, comprava-os em larga escala.
Foi ao escurecer duma tarde, durante o supremo delírio carnavalesco, que encontrei meu amigo. Abordou-me com excessivo ardor, pois já estava bastante bebido. Estava fantasiado, com um traje apertado e listado, trazendo na cabeça uma carapuça cônica, cheia de guizos. Tão contente fiquei ao vê-lo, que não cessava de apertar-lhe a mão. E disse-lhe:
— Meu caro Fortunato, foi uma felicidade encontrá-lo. Como está você bem-disposto hoje! Mas recebi uma pipa dum vinho, dado como Amontillado, e tenho minhas dúvidas.
— Como? — disse ele. — Amontillado? Uma pipa? Impossível. E no meio do carnaval!
— Tenho minhas dúvidas — repliquei —, mas fui bastante tolo em pagar o preço total do amontillado, sem antes consultar você. Não consegui encontrá-lo e tinha receio de perder uma pechincha.
— Amontillado!
— Tenho minhas dúvidas.
— Amontillado!
— É preciso desfazê-las.
— Amontillado!
— Se você não estivesse ocupado... Estou indo à casa de Luchesi. Se há alguém que entenda disso, é ele. Terá de dizer-me...
— Luchesi não sabe diferençar um Amontillado dum Xerez.
— No entanto, há uns bobos que dizem por aí que, em matéria de vinhos, vocês se equiparam.
— Pois então vamos.
— Para onde?
— Para sua adega.
— Não, meu amigo. Não quero abusar de sua boa vontade. Vejo que você está ocupado. Luchesi...
— Não estou ocupado coisa nenhuma... Vamos.
— Não, meu amigo. Não é por isso, mas é que vejo que você está fortemente resfriado. A adega está duma umidade intolerável. Suas paredes estão incrustadas de salitre.
— Não tem importância, vamos. Um resfriado à-toa. Amontillado! Acho que você foi enganado. Quanto a Luchesi, é incapaz de distinguir um Xerez dum Amontillado.
Assim falando, Fortunato agarrou-me o braço. Pondo no rosto uma máscara de seda e enrolando-me num capote, deixei-me levar por ele, às pressas, na direção do meu palácio.
Todos os criados haviam saído para se divertirem no carnaval. Dissera-lhes que só voltaria de madrugada e dera-lhes explícitas ordens para não se afastarem de casa. Foi, porém, o bastante, bem o sabia, para que se sumissem, logo que virei as costas.
Peguei dois archotes, um dos quais entreguei a Fortunato, e conduzi-o através de várias salas até a passagem abobadada, que levava à adega. Desci à frente dele uma longa e tortuosa escada, aconselhando-o a ter cuidado. Chegamos por fim ao sopé e ficamos juntos, no chão úmido das catacumbas dos Montresors.
Meu amigo cambaleava e os guizos de sua carapuça tilintavam, a cada passo que dava.
— Onde está a pipa? — perguntou ele.
— Mais para o fundo — respondi —, mas repare nas teias cristalinas que brilham nas paredes desta caverna.
Ele voltou-se para mim e fitou-me bem nos olhos, com aqueles seus dois glóbulos vítreos que destilavam a reuma da bebedice.
— Salitre? — perguntou ele, por fim.
— É, sim — respondi. — Há quanto tempo está você com essa tosse?
— Eh! Eh! Eh! Eh! Eh! Eh! Eh! — pôs-se ele a tossir e durante muitos minutos não conseguiu meu pobre amigo dizer uma palavra.
— Não é nada — disse ele, afinal.
— Venha — disse eu, decidido. — Vamos voltar. Sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado. Você é feliz, como eu era outrora. Você é um homem que faz falta. Quanto a mim, não. Voltemos. Você pode piorar e não quero ser responsável por isso. Além do que, posso recorrer a Luchesi...
— Basta! — disse ele. — Esta tosse não vale nada. Não me há de matar. Não é de tosse que hei de morrer.
— Isto é verdade... isto é verdade — respondi — e de fato, não era minha intenção alarmá-lo sem motivo. Mas acho que você deveria tomar toda a precaução. Um gole deste Médoc nos defenderá de umidade.
Então fiz saltar o gargalo duma garrafa, que retirei duma longa fileira empilhada no chão.
— Beba — disse eu, apresentando-lhe o vinho.
Levou a garrafa aos lábios com um olhar malicioso. Calou-se um instante e me cumprimentou com familiaridade, fazendo tilintarem os guizos.
— Bebo pelos defuntos que repousam em torno de nós — disse ele.
— E eu para que você viva muito.
Pegou-me de novo pelo braço e prosseguimos.
— Estas adegas são enormes — disse ele.
— Os Montresors eram uma família rica e numerosa — respondi.
— Não me lembro quais são suas armas.
— Um enorme pé humano dourado, em campo blau; o pé esmaga urna serpente rastejante, cujos colmilhos se lhe cravam no calcanhar.
— E qual é a divisa?
— Bonito! — disse ele.
O vinho faiscava-lhe nos olhos e os guizos tilintavam. Minha própria imaginação se aquecia com o Médoc. Havíamos passado diante de paredes de ossos empilhados, entre barris e pipotes, até os recessos extremos das catacumbas. Parei de novo e desta vez atrevi-me a pegar Fortunato por um braço, acima do cotovelo.
— O salitre! Veja, está aumentado. Parece musgo agarrado às paredes. Estamos em baixo do leito do rio. As gotas de umidade filtram-se entre os ossos. Venha, vamos antes que seja demasiado tarde. Sua tosse...
— Não é nada — disse ele. — Continuemos. Mas antes dê-me outro gole de Médoc.
Quebrei o gargalo duma garrafa de De Grave e entreguei-lhe. Esvaziou-a dum trago. Seus olhos cintilavam, ardentes. Riu e jogou a garrafa para cima, com um gesto que eu não compreendi.
Olhei surpreso para ele. Repetiu o grotesco movimento.
— Não compreende? — perguntou.
— Não.
— Então não pertence à irmandade?
— Que irmandade?
— Você não é maçom?
— Sim, sim, sim, sim — respondi.
— Você? Maçom? Não é possível.
— Sou maçom, sim.
— Mostre o sinal — disse ele.
— É este — respondi, retirando de sob as dobras de meu capote uma colher de pedreiro.
— Você está brincando — exclamou ele, dando uns passos para trás. — Mas vamos ver o Amontillado.
— Pois vamos — disse eu, recolocando a colher debaixo do capote e oferecendo-lhe, de novo, meu braço, sobre o qual se apoiou ele pesadamente. Continuamos o caminho em busca do Amontillado. Passamos por uma série de baixas arcadas, demos voltas, seguimos para a frente, descemos de novo e chegamos a uma profunda cripta, onde a impureza do ar reduzia a chama de nossos archotes a brasas avermelhadas.
No recanto mais remoto da cripta, outra se descobria menos espaçosa. Nas suas paredes alinhavam-se restos humanos, empilhados até o alto da abóbada, à maneira das grandes catacumbas de Paris. Três lados dessa cripta interior estavam assim ornamentados. Do quarto haviam sido afastados os ossos, que jaziam misturados no chão, formando em certo ponto um montículo de avultado tamanho. Na parede assim desguarnecida dos ossos, percebemos um outro nicho, com cerca de quatro pés de profundidade, três de largura e seis ou sete de altura. Não parecia ter sido escavado para um uso especial, mas formado simplesmente pelo intervalo entre dois dos colossais pilares de teto das catacumbas e tinha como fundo uma das paredes de sólido granito, que os circunscreviam. Foi em vão que Fortunato, erguendo a tocha mortiça, tentou espreitar a profundeza do recesso. A fraca luz não nos permitia ver-lhe o fim.
— Vamos — disse eu —, aqui está o Amontillado. Quanto a Luchesi...
— É um ignorantaço! — interrompeu meu amigo, enquanto caminhava, vacilante, para diante e eu o acompanhava rente aos seus calcanhares. Sem demora alcançou ele a extremidade do nicho e, não podendo mais prosseguir, por causa da rocha, ficou estupidamente apatetado. Um momento mais e ei-lo acorrentado por mim ao granito. Na sua superfície havia dois anéis de ferro, distando um do outro cerca de dois pés, horizontalmente. De um deles pendia curta cadeia e do outro um cadeado. Passar-lhe a corrente em torno da cintura e prendê-lo, bem seguro, foi obra de minutos. Estava por demais atônito para resistir. Tirando a chave, saí do nicho.
— Passe sua mão — disse eu — por sobre a parede; não poderá deixar de sentir o salitre. É de fato bastante úmido. Mais uma vez permita-me implorar-lhe que volte. Não? Então devo positivamente deixá-lo. Mas é preciso primeiro prestar-lhe todas as pequeninas atenções que puder.
— O Amontillado! — vociferou meu amigo, ainda não recobrado do espanto.
— É verdade — repliquei —, o Amontillado.
Ao dizer estas palavras pus-me a procurar as pilhas de ossos, a que me referi antes. Jogando-os para um lado, logo descobri grande quantidade de tijolos e argamassa. Com estes materiais e com o auxílio de minha colher de pedreiro, comecei com vigor a emparedar a entrada do nicho.
Mal havia eu começado a acamar a primeira fila de tijolos, descobri que a embriaguez de Fortunato se tinha dissipado em grande parte. O primeiro indício disto que tive foi um surdo lamento, lá do fundo do nicho. Não era o choro de um homem embriagado. Seguiu-se então um longo e obstinado silêncio. Deitei a segunda camada, a terceira e a quarta e depois ouvi as furiosas vibrações da corrente. O barulho durou vários minutos, durante os quais, para gozá-lo com maior satisfação, interrompi meu trabalho e me sentei em cima dos ossos. Quando afinal o tilintar cessou, tornei a pegar na colher e acabei sem interrupção a quinta, a sexta e a sétima camadas. A parede estava agora quase ao nível de meu peito. Parei de novo e, levantando o archote por cima dela, lancei uns poucos e fracos raios sobre o rosto dentro do nicho. Uma explosão de berros fortes e agudos, provindos da garganta do vulto acorrentado, me fez recuar com violência. Durante um breve momento hesitei. Tremia. Desembainhando minha espada, comecei a apalpar com ela em torno do nicho, mas uns instantes de reflexão me tranquilizaram. Coloquei a mão sobre a alvenaria sólida das catacumbas e senti-me satisfeito. Reaproximei-me da parede. Respondi aos urros do homem. Servi-lhe de eco... ajudei-o a gritar... ultrapassei-o em volume e em força. Fui fazendo assim e por fim cessou o clamor.
Era agora meia-noite e meu serviço chegara ao termo. Completara a oitava, a nona e a décima camadas. Tinha acabado uma porção desta última e a décima primeira. Faltava apenas uma pedra a ser colocada e argamassada. Carreguei-a com dificuldade por causa do peso. Coloquei-a, em parte, na posição devida. Mas então irrompeu de dentro do nicho uma enorme gargalhada, que me fez eriçar os cabelos. Seguiu-se-lhe uma voz lamentosa, que tive dificuldade em reconhecer como a do nobre Fortunato. A voz dizia:
— Ah! Ah! Ah!... Eh! Eh! Eh!... Uma troca bem boa de fato... uma excelente pilhéria. Haveremos de rir a bandeiras despregadas lá no palácio... Eh! Eh! Eh!... a respeito desse vinho... Eh! Eh! Eh!
— O Amontillado! — exclamei eu.
— Eh! Eh! Eh!... Eh! Eh! Eh!... Sim, o Amontillado. Mas já não será tarde? Já não estarão esperando por nós, no palácio, minha mulher e os outros? Vamos embora.
— Sim — disse eu —, vamos embora.
— Pelo amor de Deus, Montresor!
— Sim — disse eu —, pelo amor de Deus!
Aguardei debalde uma resposta a essas palavras. Impacientei-me. Chamei em voz alta:
— Fortunato!
Nenhuma resposta. Chamei de novo:
— Fortunato!
Nenhuma resposta ainda. Lancei uma tocha, através da abertura remanescente, e deixei-a cair lá dentro. Como resposta ouvi apenas o tinir dos guizos. Senti um aperto no coração... devido talvez à umidade das catacumbas. Apressei-me em terminar meu trabalho. Empurrei a última pedra em sua posição. Argamassei-a. Contra a nova parede, reergui a velha muralha de ossos. Já faz meio século que mortal algum os remexeu. In pace requiescat!